sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Coração teimoso

Fui paquerada pelo moreno alto, bonito e sensual;
Cantada em verso e prosa pelo poeta,
Encantada pelo atleta,
Apaixonei e desapaixonei ad infinitum

Brinquei, seduzi, administrei
Colecionei, experimentei e ousei
Subi e desci
Passei meus olhos por muitos olhares

Sensação, emoção, comoção
Parei o trânsito e fui ovacionada
Beleza fagueira, serelepe
Mas me vi enamorada

Não era um deus grego
E nem o príncipe encantado
Era um sonho bem real
Aquele por quem tinha apaixonado

Compreendi: amor de verdade
Não se restringe à paixão
É preciso respeito e lealdade
Pra ser mais que uma ilusão

Além do mais, não se manda em coração
Que é o órgão mais teimoso
E nos afunda na emoção
Num esquema ardiloso
Em que não se pode dizer não
Seguindo-o, caprichoso
E esquecendo a razão!!


Ivânia Rocha
Irecê/BA, 30/10/2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Alma multicor

Alma multicor

 

Parda, eu?!

Minha bisavó foi índia selvagem

Pega “a dente de cachorro”

Pelo meu bisavô Justino

Nunes: filho de portugueses

Do lado materno

Não sei quantas vezes ouvi essa história...

Meu pai, Machado original,

De ascendência negro-portuguesa

Amulatado, que beleza!!

Agora, o governo diz que sou parda...

Cor da tez?

Parda sei que não sou:

Nem branca, nem negra, nem mulata

Pele acanelada indefinida – sei lá!

A alma, com certeza, é multicor!

No íntimo sou negra, branca, índia,

Mulata, cafuza e mameluca

Trago as marcas da violência

Da captura da índia Fulô

As cadeiras largas da negra Bela

A impertinência europeia dos Nunes e Machado

A brasilidade misturada e ousada

De uma identidade forjada

Na mixagem de diferenças

Sou todos e ninguém:

Alma multicor!

 

Irecê/BA, 16/10/2009

O outro lado negro

Preto, negro, Black
Silêncio, noite, mistério
Adivinhação, faz-de-conta, magia
Boa noite de sono

Café, coca-cola, chocolate
Cabelo, cacho, pixaim
Remelexo das cadeiras
Boas coisas da vida

Petróleo, Pelé: pompa
Vê-se a cor do dinheiro
No ouro negro debaixo da terra
E nas pernas do craque

Negra é a paz do silêncio
Negra é a alegria contagiante do batuque
Escuras são as nuvens de chuva
Que guardam o verde da fartura

Preto é básico, chic, elegante
Governo de potência mundial
Nat King Cole: liderança militante
Obama: paradigma atual

Esse é o lado negro que olha
Para a beleza do escuro
A afirmação da cor negra
Como meio de vida

Irecê/BA, 16/10/2009

Devaneios contemporâneos

Cronograma, organograma, fluxograma
Horários, provas, números, diretrizes
Regras, regras, regras
Está tudo sob controle

Número da casa, CEP, RG, CPF
Homem-número, mulher-etiqueta
Ordem, ordem, ordem
Está tudo sob controle

Contas, contas, contas
Débito, crédito, economia
Controle financeiro total
Será que meu coração terá anistia?

Escola, inglês, natação
Criança-autômato age
Mas não obedece, só faz:
Cumpre, cumpre, cumpre

Esquema, cálculo, cifra
Controle e estatística
Análise, terapia, tratamento
Pra que porteiras no mundo, meu Deus?!

Irecê/BA, 16/10/2009.

A conquista da leitura

Há não muito tempo, em um lugarejo empoeirado e seco, em meio à caatinga, nascia uma leitora, em todos os sentidos da palavra – muito mais do que “uma leitora de carteirinha”. Aliás, como não havia biblioteca por lá, nem se falava em carteirinha.
A menina magricela e “perebenta”, ao contrário do que aparentava a sua frágil fisionomia, era uma criaturinha de personalidade marcante, o que demonstrou logo nos primeiros anos de sua vida, mais precisamente, aos cinco anos de idade, ao ter várias crises de choro para convencer seus pais a matricularem-na em uma escola, com urgência, tal era a curiosidade da garotinha para adentrar no misterioso mundo das palavras.
A experiência com a língua materna aconteceu muito antes da escola, com os familiares, a casa, os brinquedos, as gravuras dos livros, os objetos e o mundo que a circundava, com as cantigas de ninar entoadas por sua mãe e suas irmãs e as brincadeiras de roda no chão vermelho do povoado onde residia – tudo novo, interessante e rico em descobertas.
Houve um primeiro contato com a escola, uma espécie de Educação Infantil tradicional, em escola particular, com professora leiga e num espaço sem qualquer estrutura de uma escola. Aliás, aquilo nem mesmo lembrava uma escola de verdade: funcionava em um depósito, ao lado da casa da jovem estudante que gastava uma parte de seu tempo a entreter os filhos dos vizinhos e conhecidos, em troca de algum dinheiro. As condições eram muito precárias – as crianças tinham que levar bancos, sobre suas cabeças, para que pudessem se sentar. Foi um tanto decepcionante para a pequena Lindoya: onde estavam as letras? Por que a escola não oferecia textos, nem mesmo orais?
A pequena, muito observadora, estava achando que as histórias contadas nos programas de rádio e os “causos” que seus pais e irmãos mais velhos contavam para ela eram muito mais interessantes do que aquelas aulinhas sem graça e pobres. Havia também a vizinha ceramista – que criava pequenas esculturas de barro “de louça” e, à medida que realizava o seu trabalho, muitas vezes rodeada pela molecada circunvizinha, ia tecendo histórias e mais histórias sobre bichos domésticos e selvagens, aves de todos os tipos e formatos e lavadeiras, e trabalhadores braçais e padres e noivas e uma infinidade de objetos minúsculos que iam surgindo por entre suas mãos habilidosas, enquanto a criançada se mantinha em um silêncio quase religioso, olhos arregalados e respiração entrecortada pela admiração e encantamento daqueles momentos mágicos.
No ano seguinte à experiência pré-escolar, Lindoya foi matriculada na Alfabetização – que alegria! Finalmente poderia ler livros e também as “garatujas” que escrevia em toda a parte: livros, cadernos, folhetos, paredes, móveis e até no chão. Mas as coisas não eram tão simples como ela imaginava – a escola era longe, também não funcionava num local adequado e o depósito era apinhado de crianças de várias idades e de comportamentos diversos, apesar de serem todas alfabetizandas. A professora inexperiente e muito impaciente não dava conta sozinha de ensinar a ler e escrever aquela gurizada toda: gritava o tempo todo, esbravejava com os mais “danados” e quase não sobrava tempo para ensinar as primeiras letras.
Essa professora obrigava os alunos a dar a lição no ABC, sem nem mesmo ter explicado direito as letras do alfabeto para a turma. Um belo dia, sem mais nem menos, ela olhou para a magrelinha que sentava sempre à frente e não bagunçava como os outros alunos (os mais comportados não eram muito notados; por isso, não recebiam a punição de dar a lição na frente de todo mundo, sem saber de nada, sem qualquer preparo), mas nesse fatídico dia, a professora estava “atacada” por demais e exigiu, aos berros, que a pobre criaturinha lesse, em voz alta, para toda a classe.
Lindoya ficou lívida de susto – até aquele momento ninguém havia lhe ensinado formalmente a ler: já havia visto, nos livros, aqueles sinaizinhos curiosos e seus irmãos disseram a ela que aquilo eram letras e que estas formavam as palavras – havia o “A”, o “B”, um “B” com “A” fazia “BA” etc. Na hora, ela se apegou a isso: tentou se lembrar do que os seus irmãos haviam lhe dito e começou, lentamente e gaguejando muito, a decodificar aquele livrinho feio e sem graça, mas que se salvava por conter algumas gravuras e que, por esse motivo, era folheado amiúde por sua dona.
Eu sabia ler!! – pensou a pequena estudante – não cabendo em si mesma de tanta emoção ao ouvir a própria voz desvendando aqueles sinaizinhos. Mas a emoção fora demais para ela, a sua fala estava embargada pelo forte sentimento que a acometia e, assim, a nossa menininha gaguejava mais e mais, de alegria, de emoção, de susto. Mas a professora não queria saber de sentimentalismos, chamou a garotinha de “burra” em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, mas a pequena heroína prosseguia, deliciosamente escandalizada pela sua imensa descoberta... Foi então que aconteceu o pior, o inimaginável para uma escola: Dona Xis (vamos chamá-la assim) continuou a xingar Lindoya e disse para a menina parar com aquela leitura horrorosa e, não satisfeita com as ofensas verbais, atirou a caneta BIC de qualquer jeito, bem na cabeça da pequena criança, ferindo-a.
Lindoya sentiu o sangue escorrendo em sua testa e se espalhando por sua fronte, em jatos vermelhos de humilhação, vergonha e sofrimento. A partir desse momento tudo em relação a essa escola se apagou na mente da nossa protagonista mirim – ela tinha apenas seis anos e estava realizando o maior sonho de sua vida, apesar da dor e do constrangimento ao qual fora submetida. Essa foi a maior experiência em Língua Portuguesa e a mais marcante de toda a sua vida escolar.
Daí por diante Lindoya não parou mais de ler, lia tudo: livros enormes de História Antiga, O Tronco do Ipê, de José de Alencar, livrinhos de Bang-Bang de um de seus irmãos, receitas, placas, anúncios – tudo!! E os compreendia direitinho – até hoje traz consigo as recordações de Palheta, que trouxe a primeira muda de café para o Brasil, figura retirada daquele livrão de História que costumava pegar escondido do velho malote do seu irmão Lelê, que herdara do avô paterno deles o baú antigo, de couro de boi, e o gosto pela leitura.
Além dessas lembranças que nossa pequena jovem carrega consigo, há também a figura da elegante professora Nadira, da 1ª série do Ensino Fundamental, que era uma leitora apaixonada de histórias de banca de jornal e também uma grande colecionadora desses romances, cujas coleções tinham denominações de nomes de mulher: Sabrina, Júlia e Bianca. Pois bem, a professora emprestava um romance para Lindoya por semana, que levava o precioso objeto para casa sem que ninguém soubesse, pois sua mãe achava a leitura desses livros inadequada para uma menina tão nova, por conter cenas de mulheres modernas e arrojadas, independentes, e também separações, traições e um pouco de sexo.
Não é preciso dizer que não adiantava os cuidados maternos, Lindoya lia avidamente os belos romances da “Pró” Nadira, às escondidas, é claro. Havia sempre um exemplar de Sabrina, Júlia ou Bianca embaixo do colchão da cama da garota rebelde. E sempre que terminava um volume, a sua professora trocava-o por outro, sem pestanejar. Lindoya leu uma infinidade deles... E aprendeu bastante com as leituras realizadas – conheceu culturas diferentes, lidou com todo tipo de gente, se safou de mil e um perigos e armadilhas e amadureceu mais cedo, também.
As aulas de Língua Portuguesa sempre foram as mais agradáveis para a jovem estudante: lia os textos e os livros antes mesmo dos professores solicitarem e também fazia todas as atividades. Era ótima aluna e tirava sempre as melhores notas da classe e, muitas vezes, da escola inteira.
Era adorada por todos os professores de Língua Portuguesa, desde a 1ª série do Ensino Fundamental até concluir o Ensino Médio, e era também admirada por todos os colegas. Não se sabe ao certo se o trauma causado pela agressão da professora da Alfabetização em Lindoya foi superado pela sua paixão pelo conhecimento e pela linguagem; ou se foi propagado, ao longo da sua vida escolar, materializando-se em seu perfeccionismo, no desejo de querer ser a melhor sempre, a mais culta, a dona da letra mais bonita e redonda, a que lia mais e que dava conta de todos os conteúdos e que, não raro, conhecia o assunto melhor que os professores.
De qualquer forma, aquela experiência marcante não podou a relação de Lindoya com as letras, como era de se esperar; ao contrário, estreitou os seus laços com o mundo da leitura/escrita, tornando-os cada vez mais fortes, uma vez que já havia um contato incipiente com o universo letrado (a nossa leitora era a penúltima filha de treze; alguns de seus irmãos poderiam ser seus pais, tal era a diferença de idade – e eles se preocupavam com a educação da caçula das mulheres e se esforçavam para orientá-la) – as leituras que Lindoya fez e as que ainda faz se confundem com sua própria vida.
Hoje, a eterna leitora que Lindoya se transformou considera-se uma pessoa competente tanto na leitura, quanto na escrita, pois utiliza o que aprendeu na disciplina de Língua Portuguesa para se expressar, de modo oral ou escrito, nas diversas situações do cotidiano e, inclusive, garante o pão de cada dia, pois se tornou professora de – adivinhem - Língua Portuguesa!
Ela gosta de ler, de estudar, de descobrir coisas novas – e os professores que teve não mataram a sua curiosidade – ao contrário, a incentivaram, com exceção da famigerada Dona Xis, aquela da Alfabetização, lembram? Mas isso já passou...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Infância

Hoje, acordei pensando, recordando coisas de minha infância
Fragmentos de palavras, sonhos, soluços e muito amor
Brincadeiras, bonecas, casinha e casarão
Tudo com muito amor

Lembrei do vestidinho azul
Que sujei na primeira vez que usei
Na roça de seu Luís, com nódoa de caju
Só sei que eu apanhei

Mas foi bom demais!!
Chupar manga em cima do pé,
Tomar banho no riachinho ou no mocororô
Nadar na barragem, escorregar no baixão

Piquenique, panelada, pique-esconde,
Giribita, cair no poço: de três em três passarão,
Derradeiros ficarão!!!
A brincadeira era boa, mas só lembro do refrão!

Andar sob a chuva,
Amassar a lama com os pés, fazendo chocolate
Depois, ir para o aconchego de casa
Ficar ao pé do fogão de lenha

Escutando estórias e comendo bolinho de chuva
Uma xícara de café fumegante
E a mão quente da mãe
Que esquenta até a alma da gente

Na mente da criança grande,
Desfilam sorridentes bonecas, bolas,
Banhos ao ar livre, passeios, festas
Travessuras e meninices

Birras, zangas e até enfunamentos
Cafuné, tirar bicho de pé,
Criança de verdade traz um montão de cicatrizes pelo corpo
E a alma lavadinha de gozo, de alegria

De ter feito tudinho o que quis fazer
E de poder contar que aprontou, que amou, que sonhou
Que fez e aconteceu: na feira, na roça, na rua, na escola
No açude, na lagoa grande, no Ginu, na Gia...

E pescou, e cozinhou e extraiu mel de abelha
E teceu os mais belos sonhos sob a luz da lua,
Do candeeiro, de vela, de fogueira
E até debaixo de um sol escaldante

Fui uma criança pequena e feliz
E hoje sou uma criança grande:
Feliz, levada e sonhadora.
Graças a Deus!!!


Irecê/BA, 13 de outubro de 2009.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Recomeço_______________________________________

Acordei no Nordeste ardil
Repleta de preguiça azul
De céu e mar anil,
Amor, alegria, ideia, soul...

E choveu verde na esperança:
Mata, rio, olhar, flor;
O encanto da novidade
Na tristeza e na bonança

Desabrocharam as rosas do meu sentimento,
Mas o fogo da paixão virou amizade
E o brilho estonteante: ofuscamento
Contato de pele, dentes, cabelos – realidade

O sonho se foi em brancas nuvens
Na seta pontiaguda do destino
Levou silêncio, segredo e fascínio
Levou as rosas; ficou só espinho

Ainda é cedo para o luto
Depois da lua cheia vem o sol
E o áspero e duro sentimento
Se vai com o carnaval

Tudo se vai com o carnaval
Preconceito, vergonha, conservadorismo
Ruptura com o passado
A dor se faz escorregadia

E foge, fluida
Pela água prateada do amanhecer
A alma pede vida, bebê, amante, vinho:
É hora de recomeçar...









Irecê, 20/03/2009.