sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pirulito


Pirulito, lito, lito
De morango ou framboesa
Você é saboroso
Bem gostoso com certeza!

Pirulito, lito, lito
Qual é o teu sabor?
Pirulito, lito, lito
Está cheio de amor!

Êita, o que a fome não faz??

Irecê/BA, 26/10/2009
Imagem: Google

Tom da vida

Sentir é bom
Mesmo que seja ruim
Sentir o som
No fundo de mim

Seguir o tom
Da canção assim
Sentir o dom
Da vida em mim

Fazer é bom
Quando se está a fim
Dançar ao som
De um querubim

Quero usar batom
Estourar festim
Apreciar o tom
De qualquer jasmim

Viver ao som
Como um arlequim
Levando o tom
Até o fim

Irecê/BA, 13/11/2009

A paixão

Um beijo selado calorosamente
Um abraço apertado, peito a peito,
As batidas de dois corações
No mesmo compasso

A troca de olhares
Que se alargam ao infinito
O desejo de estar junto
O céu e o inferno de amar

As carícias, pele na pele
Os afagos, mãos no cabelo
Almas nas mãos do outro
E pés nas nuvens

A paixão é magnífica
Embala, retorce, flameja
É veneno e remédio
Atestado de vida

É horrível desapaixonar-se
Atestado de óbito
Vida sem graça e sem brilho
Vida sem vida

Irecê/BA, 13/11/2009

Tormentos

Em meio à tempestade
Os cabelos cheios de vida
E o brilho dos olhos
Parecem zombar do meu sofrimento

A alma estraçalhada em mil pedaços
Em franco contraste com a pele luzidia
As curvas do meu corpo
Não revelam o doloroso sentimento

A angústia, o medo, a dor
Padecimentos de um espírito atordoado,
Cansado, maltratado, endurecido
(Ou seria amolecido?) pela vida

Em meio à tormenta
Ouço meu corpo e minha alma
Sinto aquele aperto no peito
Gritar dentro do meu ser

E, curiosamente, percebo:
Estou muito viva e alerta
A dor, a tristeza, a angústia
São mazelas de todo mortal

E quem vive indiferente
Morreu para a vida
Perdeu o seu lado gente
Coração sem batida


Irecê/BA, 13/11/2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

ANÁLISE LITERÁRIA DO POEMA “HOJE”, DE WALY SALOMÃO

Waly Salomão foi um baiano do sul da Bahia, filho de pai turco e mãe baiana e que desde cedo manteve contato com livros. Nascido dessa mistura de raças, uma mostra de tolerância e convivência entre os diferentes, não é de se estranhar que esse hibridismo se espelhasse em seus poemas, através da mistura de temas e, principalmente, através da liberação de sentimentos e idéias extravagantes, sonoras, chamativas.

No poema “Hoje”, o eu-lírico demonstra o seu frenesi pela vida, a sua sede de celebrar o momento presente: o aqui e o agora – sem cerimônia! E, mesmo sem expressá-lo claramente, ele demonstra o desejo implícito de passar uma borracha no passado, de suplantá-lo, uma vez que cultuando o presente, está, de certo modo, negando o passado.

A composição do poema consiste em quatro estrofes heterogêneas, que por sua vez são compostas de versos livres e brancos, ou seja, cada estrofe possui um número distinto de versos e estes não possuem uma quantidade definida de sílabas, nem rimas, com exceção de alguns versos aleatórios cuja sonoridade converge com a de outros, provocando a rima (diplomacia/ dia-a-dia – 3º e 5º versos da 3ª estrofe, respectivamente).

O autor retoma, acredito que de forma consciente, à tendência adotada pelos modernistas da primeira fase do Modernismo brasileiro, que foi de combate ao passado, às formas de se fazer arte e cultura até aquele momento: logo na primeira estrofe o eu-lírico, que está em primeira pessoa, declara abertamente que não quer seguir as regras, as normas vigentes na sociedade – “O que menos quero pro meu dia/ polidez, boas maneiras.” Em seguida, faz uma alusão às convenções da gramática normativa, quando afirma “Quando nasci, nasci nu,/ ignaro da colocação do ponto e vírgula,/ e, principalmente, das reticências.” Nesse ponto, é possível fazer uma correlação com o poema “Poética”, de Manuel Bandeira, no trecho: “Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo./ Abaixo os puristas// Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais/ Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção/ Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis.”[1]. Os dois autores pregam a liberdade de expressão, o uso irrestrito das palavras, sem regras que porventura possam limitar o ato comunicativo. Aliás, a poesia de Waly também se parece com a de Manuel Bandeira no estilo da linguagem empregada por ambos, na necessidade de utilizar palavras e expressões simples, compreensíveis para uma gama de leitores.
Na segunda estrofe, o eu-lírico demonstra toda a sua vontade de dar movimento à sua vida, de desestruturar a ordem vigente, de estabelecer o seu próprio ritmo, a sua “batida”, assinalar o território da sua “tribo”. Essa cadência forte aparece no poema através da repetição da palavra ritmo, que dá uma sonoridade aos versos da estrofe que pertencem, se assemelhando aos poemas do Concretismo, que procuram retratar semelhanças entre o significante e o significado.
Na terceira estrofe, novamente é possível perceber a intertextualidade com Bandeira: outra vez o texto de “Hoje” e de “Poética” dialogam entre si. Agora, os três primeiros versos dessa estrofe (“Não está prevista a emissão/ de nenhuma “Ordem do dia”./ Está prescrito o protocolo da diplomacia.”) se aproximam dos versos iniciais do poema de Bandeira: “Estou farto do lirismo comedido/ Do lirismo bem comportado/ Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.” O dialogismo dos dois consiste no desejo de ambos de romper o protocolo, de descer as máscaras sociais impostas pela boa educação, de agir livremente, sem regras. Está implícito nos dois textos uma certa ironia, uma ligeira crítica à burocracia e também uma aversão à hierarquia, perceptíveis no emprego de expressões como “protocolo da diplomacia” e “manifestações de apreço ao sr. diretor” em Waly e Bandeira, respectivamente.

Waly Salomão transita, muito à vontade, entre o moderno e o pós-moderno. Na dita terceira estrofe o poeta traz elementos da pós-modernidade, como a agitação e a propaganda, que são dois ícones da atualidade, uma vez que estão presentes na vida das pessoas: esta, em toda a parte; aquela, principalmente entre os moradores das grandes metrópoles. Na referida estrofe há a reiteração do ritmo frenético suscitado pelo autor: não se trata de qualquer ritmo, mas é algo muito forte – “ápice do ápice”, nas palavras do próprio Waly.

Na quarta e última estrofe, Waly utiliza a metalinguagem para confirmar algumas impressões as quais já havíamos descrito anteriormente: o tom irônico que perpassa todo o poema e também a nítida conexão com o Modernismo. Mas ele vai além, ele procura justificar a necessidade do eu-poético por ritmo e, ao mesmo tempo, mostrar que a simples busca de ritmo não é algo fácil, banal, corriqueiro. Neste ponto, ele utiliza uma metáfora, quando o eu-lírico compara o seu próprio ritmo ao ritmo da água que jorra da torneira, que se mostra ora regular, ora aleatória.

Na estrofe final também o poeta recorre ao uso de imagem concreta, quando ele dá a forma da água que sai da torneira aos versos, que ora são fortes, caudalosos; ora são meros respingos, demonstrando a instabilidade rítmica proposta pelo poeta no decorrer do texto.

No final, a imagem que se tem é de um Waly apaixonado, vibrante e inquieto; de alguém que não passaria a vida em branco de forma alguma. De fato, o escritor não escreve à toa, cada escrito contém um pouco da essência de quem o escreveu: mesmo que a disposição das palavras fosse aleatória, mesmo assim, a escolha dessa e não daquela palavra já é suficiente para fornecer pistas sobre o pensamento e a postura do escritor.

O poema em questão está situado em seu tempo, revestido de caracteres pós-modernos, tanto no que concerne ao conteúdo, quanto à forma (disposição de estrofes e versos, prevalência de versos brancos e livres) e, ao mesmo tempo, retoma o Modernismo e o Concretismo, dando a justa impressão ao leitor que o poeta, de fato, está intercalando um estilo a outro, materializando o ritmo do eu-lírico, que não é uniforme, mas aparece multifacetado e em processo permanente de mudança, sendo construído e desconstruído em todo o poema.

Um único olhar sobre o poema não dá conta da miríade de possibilidades contidas no texto poético, como afirma Norma Goldstein: “A interpretação dificilmente será a palavra final, se for feita por uma só pessoa. O texto literário talvez seja aquele que mais se aproxima do sentido etimológico da palavra ‘texto’: entrelaçamento, tecido.” (GOLDSTEIN, 2006. p. 12). Então, pode-se concluir que o presente texto é uma interpretação possível, e que provavelmente existirão outras tantas análises, que poderão convergir ou divergir desta, mas a leitura que se faz aqui é uma possibilidade real, a tessitura do tecido com o entrelaçamento que se vislumbrou para nós.

Reprodução do poema, na íntegra:

Hoje
Waly Salomão
O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...
Reprodução do poema de Manuel Bandeira, utilizado em comparação ao de Waly:

POÉTICA
Manuel Bandeira
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de
apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

[1] BANDEIRA, Manuel. Poética. Disponível em: www.infoescola.com/livros/estrela-da-vida-inteira/ - 31k –Presente na obra: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 2 ed. Rio de Janeiro, J. Olympio, 1970.

Análise do conto "Um moço muito branco"

ROSA, Guimarães. Um moço muito branco. In: ROSA, Guimarães. Primeiras Estórias. – 1. ed. Especial. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. (Col. 40 Anos, 40 livros/ pp. 139 à 144)
Por: Giomara Gomes e Ivânia Rocha

Um moço muito branco é um dos contos do livro “Primeiras Estórias”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, um dos mais curtos, por sinal, com apenas seis laudas. Similar aos outros contos quanto à linguagem, mas diferindo daqueles no que tange à temática, que faz menção a elementos sobrenaturais; também se diferencia das outras estórias por trazer, com exatidão, data e local dos acontecimentos, o que não é comum na obra do referido autor.

A ambientação da estória é, notadamente, um ambiente rural, de fazendas, de sertão: mata, rio, montes, rochedos – elementos que fazem parte da realidade do escritor. As personagens são também características: os fazendeiros, o escravo alforriado, o padre e a moça triste, embora o moço muito branco destoe um tanto do restante. Um outro personagem, o cego pedinte, é também recorrente na prosa de Guimarães Rosa, embora nesse conto específico ele não desempenhe o papel profético que lhe é atribuído nos outros textos (A hora e a vez de Augusto Matraga – Sagarana; ou em Cara-de-Bronze – No Urubuquaquá, no Pinhém/ Corpo de Baile), uma vez que nesse texto, o autor da premonição é o negro José Kakende.

O conto de João Guimarães Rosa é iniciado fazendo referência a uma imensa tempestade, semelhante ao dilúvio retratado na Bíblia:

“Dito que um fenômeno luminoso se projetou no espaço, seguido de estrondos, e a terra se abalou, num terremoto que sacudiu os altos, quebrou e entulhou casas, remexeu vales, matou gente sem conta; caiu outrossim medonho temporal, com assombrosa e jamais vista inundação, subindo as águas de rio e córregos a sessenta palmos da plana [...] só escombros de morros, grotas escancaradas, riachos longe transportados, matos revirados pelas raízes [...]” (ROSA, 2005. p. 139)

Em um moço muito branco, surge um mistério após uma tempestade. Um fenômeno luminoso se projetou no espaço, seguido de estrondos e tremores de terra. Porém da assustadora tempestade, onde foram destruídas casas e vales, surge um homem muito branco, que de tão branco parecia ter por dentro da pele uma segunda claridade. O narrador nos faz entender e comparar essa tempestade com o dilúvio e esse moço muito branco que apareceu nessa comunidade para trazer um pouco de luz para as pessoas, com o Messias que veio ao mundo para nos livrar do pecado.

O tal moço possuía distintas formas, mas em lastimáveis condições, vestido como um maltrapilho, o qual ninguém sabia de onde veio e de quem se trata, ele não fala nem tem memória, mas tem em suas mãos um poder muito grande de transformar a vida das pessoas que se aproximam e são tocadas por ele.

O fato de que todos se transformam diante da presença do moço muito branco, nos faz imaginar que se trata de um ser especial, enviando de outro planeta ou do plano divino. Todas as pessoas da comunidade gostaram dele, principalmente Hilário Cordeiro, o senhor que lhe deu roupas, alimento e abrigo. Duarte Dias, homem “maligno e injusto”, pai da bela moça Viviana, foi quem menos teve afeição por ele.

Mais adiante, o narrador evidencia o poder curativo do messias que, vendo nos olhos de Viviana uma profunda tristeza, ele tocou com a palma da mão em seu seio, e a partir desse momento, a alegria tomou conta de seu coração. O narrador sempre nos leva a associar o conto com alguma passagem da Bíblia, semelhante às curas realizadas por Jesus, como na passagem em que este toca uma mulher encurvada no templo e ordena que ela se levante e siga.

É um conto muito belo, e que traz a questão do mistério, do impalpável, do desconhecido, como em outros escritos do autor; inclusive se assemelhando um pouco com o episódio de Sagarana, denominado “A hora e a vez de Augusto Matraga”, no qual é retratada a ascensão e queda de Augusto, que se transforma, após o sofrimento e termina a história como santo. Também em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa deixa sempre presente a questão da religiosidade, através dos mistérios e dos “acontecidos” que Riobaldo não conseguia explicar por meio da razão.
Tudo muda na vida daquele senhor que recebeu em sua casa o moço muito branco, que nada dizia ou fazia de muito árduo, mas que, de alguma forma, influenciava nas decisões todas que eram tomadas na fazenda do seu anfitrião.

É perceptível que a cor do homem não foi escolhida ao acaso, como aliás tudo em Guimarães; a alvura da pele retratava a sua pureza a sua aura interior; não que isto seja um preconceito, pois o inverso não ocorre com a cor preta, uma vez que, na própria estória, o negro José Kakende, como anunciador do acontecimento, é a pessoa mais próxima do messias e também é aquele que parece melhor compreendê-lo.

O caso da profecia de José Kakende, escravo “meio” forro e aparentemente um tanto desvairado, merece atenção especial; pois o referido negro, que afirmara ter tido uma premonição de tudo o que sucederia, é como se fosse um dos profetas que previram a vinda de Jesus, muito tempo antes deste encarnar neste Planeta.

A luz que trouxe a tempestade pode ser associada a um ovni, embora o autor não afirme isso, mas fica evidente, outrossim, que o moço muito branco não pertence a esta dimensão. Em um dado momento ele se encontra com o cego que pede esmolas à porta da igreja, e dá a este uma semente, que o cego tenta, em vão, comer; passado algum tempo, a semente é plantada e dela surge uma planta exótica, que produz flores de rara beleza e de diversas cores, mais uma evidência de que o moço muito branco era uma criatura vinda de um lugar eqüidistante e provavelmente mais evoluído que a Terra, pelos dons do visitante.

O moço muito branco trouxe paz e alegria para todos que se aproximavam dele; inclusive para Duarte Dias, que havia implicado com aquele inicialmente; e que mais adiante também se renderia à sua energia luminosa, que irradiava de seu interior ao seu semblante e adjacências.

Da mesma forma misteriosa que surgiu, o moço muito branco desapareceu; de modo que José Kakende afirmara que o messias ascendera ao céu, por não pertencer a esta dimensão. Essa passagem lembra também a volta triunfal de Cristo, após a crucificação, como prova de que as pessoas não são apenas matéria; é isso que nos transmite Rosa, ao trazer essa natureza mágica a seus contos: é como se o autor quisesse, propositalmente, provocar o leitor a refletir sobre os mistérios da vida, as sendas, o inexplicável.

Ademais, o conto nos faz um convite irrecusável à espiritualidade e à reflexão; é como se o autor brincasse com a nossa ignorância e incredulidade diante de certas questões que o nosso raciocínio lógico ainda não alcança.

Nauane, eu e Viviane - Literatura Viva 2009

2V9: Decorada com fotos, poemas e petições do advogado e escritor uibaiense Osvaldo Alencar, autor do livro Canabrava do Gonçalo, cuja narrativa retorna ao povoamento e fundação da Vila de Canabrava, hoje conhecida como Uibaí.
Além da obra citada, os alunos leram "Pelas veias da esperança", de Edimário Machado, também natural de Uibaí, que narra a saga de Osvaldo Alencar.
Valeu galera!!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Coração teimoso

Fui paquerada pelo moreno alto, bonito e sensual;
Cantada em verso e prosa pelo poeta,
Encantada pelo atleta,
Apaixonei e desapaixonei ad infinitum

Brinquei, seduzi, administrei
Colecionei, experimentei e ousei
Subi e desci
Passei meus olhos por muitos olhares

Sensação, emoção, comoção
Parei o trânsito e fui ovacionada
Beleza fagueira, serelepe
Mas me vi enamorada

Não era um deus grego
E nem o príncipe encantado
Era um sonho bem real
Aquele por quem tinha apaixonado

Compreendi: amor de verdade
Não se restringe à paixão
É preciso respeito e lealdade
Pra ser mais que uma ilusão

Além do mais, não se manda em coração
Que é o órgão mais teimoso
E nos afunda na emoção
Num esquema ardiloso
Em que não se pode dizer não
Seguindo-o, caprichoso
E esquecendo a razão!!


Ivânia Rocha
Irecê/BA, 30/10/2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Alma multicor

Parda, eu?!
Minha bisavó foi índia selvagem
Pega “a dente de cachorro”
Pelo meu bisavô Joaquim
Nunes: filho de portugueses
Do lado materno
Não sei quantas vezes ouvi essa história...
Meu pai, Machado original,
De ascendência negro-portuguesa
Amulatado, que beleza!!
Agora, o governo diz que sou parda...
Cor da tez?
Parda sei que não sou:
Nem branca, nem negra, nem mulata
Pele acanelada indefinida – sei lá!
A alma, com certeza, é multicor!
No íntimo sou negra, branca, índia,
Mulata, cafuza e mameluca
Trago as marcas da violência
Da captura da índia Chiquinha
As cadeiras largas da negra Bela
A impertinência europeia dos Nunes e Machado
A brasilidade misturada e ousada
De uma identidade forjada
Na mixagem de diferenças
Sou todos e ninguém:
Alma multicor!

Irecê/BA, 16/10/2009

O outro lado negro

Preto, negro, Black
Silêncio, noite, mistério
Adivinhação, faz-de-conta, magia
Boa noite de sono

Café, coca-cola, chocolate
Cabelo, cacho, pixaim
Remelexo das cadeiras
Boas coisas da vida

Petróleo, Pelé: pompa
Vê-se a cor do dinheiro
No ouro negro debaixo da terra
E nas pernas do craque

Negra é a paz do silêncio
Negra é a alegria contagiante do batuque
Escuras são as nuvens de chuva
Que guardam o verde da fartura

Preto é básico, chic, elegante
Governo de potência mundial
Nat King Cole: liderança militante
Obama: paradigma atual

Esse é o lado negro que olha
Para a beleza do escuro
A afirmação da cor negra
Como meio de vida

Irecê/BA, 16/10/2009

Devaneios contemporâneos

Cronograma, organograma, fluxograma
Horários, provas, números, diretrizes
Regras, regras, regras
Está tudo sob controle

Número da casa, CEP, RG, CPF
Homem-número, mulher-etiqueta
Ordem, ordem, ordem
Está tudo sob controle

Contas, contas, contas
Débito, crédito, economia
Controle financeiro total
Será que meu coração terá anistia?

Escola, inglês, natação
Criança-autômato age
Mas não obedece, só faz:
Cumpre, cumpre, cumpre

Esquema, cálculo, cifra
Controle e estatística
Análise, terapia, tratamento
Pra que porteiras no mundo, meu Deus?!

Irecê/BA, 16/10/2009.

A conquista da leitura

Há não muito tempo, em um lugarejo empoeirado e seco, em meio à caatinga, nascia uma leitora, em todos os sentidos da palavra – muito mais do que “uma leitora de carteirinha”. Aliás, como não havia biblioteca por lá, nem se falava em carteirinha.
A menina magricela e “perebenta”, ao contrário do que aparentava a sua frágil fisionomia, era uma criaturinha de personalidade marcante, o que demonstrou logo nos primeiros anos de sua vida, mais precisamente, aos cinco anos de idade, ao ter várias crises de choro para convencer seus pais a matricularem-na em uma escola, com urgência, tal era a curiosidade da garotinha para adentrar no misterioso mundo das palavras.
A experiência com a língua materna aconteceu muito antes da escola, com os familiares, a casa, os brinquedos, as gravuras dos livros, os objetos e o mundo que a circundava, com as cantigas de ninar entoadas por sua mãe e suas irmãs e as brincadeiras de roda no chão vermelho do povoado onde residia – tudo novo, interessante e rico em descobertas.
Houve um primeiro contato com a escola, uma espécie de Educação Infantil tradicional, em escola particular, com professora leiga e num espaço sem qualquer estrutura de uma escola. Aliás, aquilo nem mesmo lembrava uma escola de verdade: funcionava em um depósito, ao lado da casa da jovem estudante que gastava uma parte de seu tempo a entreter os filhos dos vizinhos e conhecidos, em troca de algum dinheiro. As condições eram muito precárias – as crianças tinham que levar bancos, sobre suas cabeças, para que pudessem se sentar. Foi um tanto decepcionante para a pequena Lindoya: onde estavam as letras? Por que a escola não oferecia textos, nem mesmo orais?
A pequena, muito observadora, estava achando que as histórias contadas nos programas de rádio e os “causos” que seus pais e irmãos mais velhos contavam para ela eram muito mais interessantes do que aquelas aulinhas sem graça e pobres. Havia também a vizinha ceramista – que criava pequenas esculturas de barro “de louça” e, à medida que realizava o seu trabalho, muitas vezes rodeada pela molecada circunvizinha, ia tecendo histórias e mais histórias sobre bichos domésticos e selvagens, aves de todos os tipos e formatos e lavadeiras, e trabalhadores braçais e padres e noivas e uma infinidade de objetos minúsculos que iam surgindo por entre suas mãos habilidosas, enquanto a criançada se mantinha em um silêncio quase religioso, olhos arregalados e respiração entrecortada pela admiração e encantamento daqueles momentos mágicos.
No ano seguinte à experiência pré-escolar, Lindoya foi matriculada na Alfabetização – que alegria! Finalmente poderia ler livros e também as “garatujas” que escrevia em toda a parte: livros, cadernos, folhetos, paredes, móveis e até no chão. Mas as coisas não eram tão simples como ela imaginava – a escola era longe, também não funcionava num local adequado e o depósito era apinhado de crianças de várias idades e de comportamentos diversos, apesar de serem todas alfabetizandas. A professora inexperiente e muito impaciente não dava conta sozinha de ensinar a ler e escrever aquela gurizada toda: gritava o tempo todo, esbravejava com os mais “danados” e quase não sobrava tempo para ensinar as primeiras letras.
Essa professora obrigava os alunos a dar a lição no ABC, sem nem mesmo ter explicado direito as letras do alfabeto para a turma. Um belo dia, sem mais nem menos, ela olhou para a magrelinha que sentava sempre à frente e não bagunçava como os outros alunos (os mais comportados não eram muito notados; por isso, não recebiam a punição de dar a lição na frente de todo mundo, sem saber de nada, sem qualquer preparo), mas nesse fatídico dia, a professora estava “atacada” por demais e exigiu, aos berros, que a pobre criaturinha lesse, em voz alta, para toda a classe.
Lindoya ficou lívida de susto – até aquele momento ninguém havia lhe ensinado formalmente a ler: já havia visto, nos livros, aqueles sinaizinhos curiosos e seus irmãos disseram a ela que aquilo eram letras e que estas formavam as palavras – havia o “A”, o “B”, um “B” com “A” fazia “BA” etc. Na hora, ela se apegou a isso: tentou se lembrar do que os seus irmãos haviam lhe dito e começou, lentamente e gaguejando muito, a decodificar aquele livrinho feio e sem graça, mas que se salvava por conter algumas gravuras e que, por esse motivo, era folheado amiúde por sua dona.
Eu sabia ler!! – pensou a pequena estudante – não cabendo em si mesma de tanta emoção ao ouvir a própria voz desvendando aqueles sinaizinhos. Mas a emoção fora demais para ela, a sua fala estava embargada pelo forte sentimento que a acometia e, assim, a nossa menininha gaguejava mais e mais, de alegria, de emoção, de susto. Mas a professora não queria saber de sentimentalismos, chamou a garotinha de “burra” em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, mas a pequena heroína prosseguia, deliciosamente escandalizada pela sua imensa descoberta... Foi então que aconteceu o pior, o inimaginável para uma escola: Dona Xis (vamos chamá-la assim) continuou a xingar Lindoya e disse para a menina parar com aquela leitura horrorosa e, não satisfeita com as ofensas verbais, atirou a caneta BIC de qualquer jeito, bem na cabeça da pequena criança, ferindo-a.
Lindoya sentiu o sangue escorrendo em sua testa e se espalhando por sua fronte, em jatos vermelhos de humilhação, vergonha e sofrimento. A partir desse momento tudo em relação a essa escola se apagou na mente da nossa protagonista mirim – ela tinha apenas seis anos e estava realizando o maior sonho de sua vida, apesar da dor e do constrangimento ao qual fora submetida. Essa foi a maior experiência em Língua Portuguesa e a mais marcante de toda a sua vida escolar.
Daí por diante Lindoya não parou mais de ler, lia tudo: livros enormes de História Antiga, O Tronco do Ipê, de José de Alencar, livrinhos de Bang-Bang de um de seus irmãos, receitas, placas, anúncios – tudo!! E os compreendia direitinho – até hoje traz consigo as recordações de Palheta, que trouxe a primeira muda de café para o Brasil, figura retirada daquele livrão de História que costumava pegar escondido do velho malote do seu irmão Lelê, que herdara do avô paterno deles o baú antigo, de couro de boi, e o gosto pela leitura.
Além dessas lembranças que nossa pequena jovem carrega consigo, há também a figura da elegante professora Nadira, da 1ª série do Ensino Fundamental, que era uma leitora apaixonada de histórias de banca de jornal e também uma grande colecionadora desses romances, cujas coleções tinham denominações de nomes de mulher: Sabrina, Júlia e Bianca. Pois bem, a professora emprestava um romance para Lindoya por semana, que levava o precioso objeto para casa sem que ninguém soubesse, pois sua mãe achava a leitura desses livros inadequada para uma menina tão nova, por conter cenas de mulheres modernas e arrojadas, independentes, e também separações, traições e um pouco de sexo.
Não é preciso dizer que não adiantava os cuidados maternos, Lindoya lia avidamente os belos romances da “Pró” Nadira, às escondidas, é claro. Havia sempre um exemplar de Sabrina, Júlia ou Bianca embaixo do colchão da cama da garota rebelde. E sempre que terminava um volume, a sua professora trocava-o por outro, sem pestanejar. Lindoya leu uma infinidade deles... E aprendeu bastante com as leituras realizadas – conheceu culturas diferentes, lidou com todo tipo de gente, se safou de mil e um perigos e armadilhas e amadureceu mais cedo, também.
As aulas de Língua Portuguesa sempre foram as mais agradáveis para a jovem estudante: lia os textos e os livros antes mesmo dos professores solicitarem e também fazia todas as atividades. Era ótima aluna e tirava sempre as melhores notas da classe e, muitas vezes, da escola inteira.
Era adorada por todos os professores de Língua Portuguesa, desde a 1ª série do Ensino Fundamental até concluir o Ensino Médio, e era também admirada por todos os colegas. Não se sabe ao certo se o trauma causado pela agressão da professora da Alfabetização em Lindoya foi superado pela sua paixão pelo conhecimento e pela linguagem; ou se foi propagado, ao longo da sua vida escolar, materializando-se em seu perfeccionismo, no desejo de querer ser a melhor sempre, a mais culta, a dona da letra mais bonita e redonda, a que lia mais e que dava conta de todos os conteúdos e que, não raro, conhecia o assunto melhor que os professores.
De qualquer forma, aquela experiência marcante não podou a relação de Lindoya com as letras, como era de se esperar; ao contrário, estreitou os seus laços com o mundo da leitura/escrita, tornando-os cada vez mais fortes, uma vez que já havia um contato incipiente com o universo letrado (a nossa leitora era a penúltima filha de treze; alguns de seus irmãos poderiam ser seus pais, tal era a diferença de idade – e eles se preocupavam com a educação da caçula das mulheres e se esforçavam para orientá-la) – as leituras que Lindoya fez e as que ainda faz se confundem com sua própria vida.
Hoje, a eterna leitora que Lindoya se transformou considera-se uma pessoa competente tanto na leitura, quanto na escrita, pois utiliza o que aprendeu na disciplina de Língua Portuguesa para se expressar, de modo oral ou escrito, nas diversas situações do cotidiano e, inclusive, garante o pão de cada dia, pois se tornou professora de – adivinhem - Língua Portuguesa!
Ela gosta de ler, de estudar, de descobrir coisas novas – e os professores que teve não mataram a sua curiosidade – ao contrário, a incentivaram, com exceção da famigerada Dona Xis, aquela da Alfabetização, lembram? Mas isso já passou...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Infância

Hoje, acordei pensando, recordando coisas de minha infância
Fragmentos de palavras, sonhos, soluços e muito amor
Brincadeiras, bonecas, casinha e casarão
Tudo com muito amor

Lembrei do vestidinho azul
Que sujei na primeira vez que usei
Na roça de seu Luís, com nódoa de caju
Só sei que eu apanhei

Mas foi bom demais!!
Chupar manga em cima do pé,
Tomar banho no riachinho ou no mocororô
Nadar na barragem, escorregar no baixão

Piquenique, panelada, pique-esconde,
Giribita, cair no poço: de três em três passarão,
Derradeiros ficarão!!!
A brincadeira era boa, mas só lembro do refrão!

Andar sob a chuva,
Amassar a lama com os pés, fazendo chocolate
Depois, ir para o aconchego de casa
Ficar ao pé do fogão de lenha

Escutando estórias e comendo bolinho de chuva
Uma xícara de café fumegante
E a mão quente da mãe
Que esquenta até a alma da gente

Na mente da criança grande,
Desfilam sorridentes bonecas, bolas,
Banhos ao ar livre, passeios, festas
Travessuras e meninices

Birras, zangas e até enfunamentos
Cafuné, tirar bicho de pé,
Criança de verdade traz um montão de cicatrizes pelo corpo
E a alma lavadinha de gozo, de alegria

De ter feito tudinho o que quis fazer
E de poder contar que aprontou, que amou, que sonhou
Que fez e aconteceu: na feira, na roça, na rua, na escola
No açude, na lagoa grande, no Ginu, na Gia...

E pescou, e cozinhou e extraiu mel de abelha
E teceu os mais belos sonhos sob a luz da lua,
Do candeeiro, de vela, de fogueira
E até debaixo de um sol escaldante

Fui uma criança pequena e feliz
E hoje sou uma criança grande:
Feliz, levada e sonhadora.
Graças a Deus!!!


Irecê/BA, 13 de outubro de 2009.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Recomeço_______________________________________

Acordei no Nordeste ardil
Repleta de preguiça azul
De céu e mar anil,
Amor, alegria, ideia, soul...

E choveu verde na esperança:
Mata, rio, olhar, flor;
O encanto da novidade
Na tristeza e na bonança

Desabrocharam as rosas do meu sentimento,
Mas o fogo da paixão virou amizade
E o brilho estonteante: ofuscamento
Contato de pele, dentes, cabelos – realidade

O sonho se foi em brancas nuvens
Na seta pontiaguda do destino
Levou silêncio, segredo e fascínio
Levou as rosas; ficou só espinho

Ainda é cedo para o luto
Depois da lua cheia vem o sol
E o áspero e duro sentimento
Se vai com o carnaval

Tudo se vai com o carnaval
Preconceito, vergonha, conservadorismo
Ruptura com o passado
A dor se faz escorregadia

E foge, fluida
Pela água prateada do amanhecer
A alma pede vida, bebê, amante, vinho:
É hora de recomeçar...









Irecê, 20/03/2009.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Saudade


Hoje tomei consciência de algo muito triste:
Ando com saudade ultimamente
Mas não é de você, nem da infância, nem da juventude
Saudade de mim mesma – isso existe!

É uma saudade que dói, que persiste
Sinto falta da vivacidade
De qualquer idade
É um sentimento que insiste

Sinto a ausência do meu eu
Em cada frase
Em cada gesto meu
Onde minh’alma se escondeu?

Nos medos, nas angústias,
Problemas, dilemas, telefonemas
Casa, filhos, marido, trabalho?
Acorda, mulher bombril!!

Vai rever as rosas...
Apreciar mais um pôr-do-sol
Ou um amanhecer, mesmo cinza
Ainda se lembra da lua?

E as pessoas nas ruas,
Amizades, passeios,
E a farra?!
E a alegria da cigarra?

Viaje nos sonhos, ao menos...
Não é proibido sonhar,
Ainda. Aproveite!!
Carpe diem.
Irecê/BA, 06/10/2009.

UMA QUESTÃO DE ESCOLHA

Por que as pessoas mudam?
Será que é o tempo?
Que nos leva a juventude,
A alegria,
A vontade de vencer,
A ânsia de liberdade?!

Será que é o tempo,
Que nos faz escravos do nada,
Autômatos de uma rotina inacabável?
Ou será que é uma questão de escolha?

Simplesmente nos acovardamos
Diante de nossos próprios sonhos?
Deixamos que o lugar-comum,
A rotina,
O tédio,
Os costumes,
As crenças dos outros se incorporem
Às nossas vidas como se fossem nossos;

E abdicamos de viver o nosso próprio destino:
Porque é mais cômodo,
Porque o outro é culpado,
Porque somos vítimas das circunstâncias...

Em que lugar do passado esquecemos de nós mesmos?
Dos nossos pensamentos,
Da nossa alma,
Do nosso eu? Irecê, s.d.

Vivendo

Eu só sei viver intensamente
Só sei amar apaixonadamente
Meu sonho é lindo e diferente
Se me apaixono é de uma paixão ardente

O meu jeito de ser é surpreendente
Amo a vida de maneira atraente
Trato todas as pessoas como gente
(por que haveria de ser diferente?)
Mas, apesar de tudo, sou impaciente

Porque,
Nem sempre vejo nos outros
Vida
Amor
Sonho
Paixão

O que mais vejo é
Um jeito de ser arrogante
Desamor à vida
Taxar o outro como ignorante
Desespero e suicidas

Então,
Sofro intensamente
Intensamente choro
Calorosamente me apego ao Ser Supremo
Dentro da alma renasce a esperança, intensamente.

Ivânia Nunes, 15/12/1992.
Salvador/ Ba.

É Natal...

O mundo todo se cala e se une em prece
Para homenagear o menino Jesus.
É mês de confraternização e reflexão.
Cada natal é o renascer para uma vida perfeita
De filho de Deus,
Para uma vida de plena harmonia
Com os familiares,
Sucesso nos campos
Profissional e social.
“Parabéns pelo seu renascimento”.

Ivânia Nunes, 15/12/1992.
Salvador/ Ba.

Beleza d’alma

És bela, sim...
Bela como um poema de amor;
Tua beleza não tem cor nem forma.
Não tem tamanho, porque é infinita
Não tem sexo definido, e é pagã
Já sabes quem és?
És uma alma pura:
Tens a paz de um ancião,
A inocência de uma criança.
As pessoas costumam chamar-te
Coração Apaixonado.





Ivânia Nunes, S. D.
Salvador/ Ba.

Reflitamos

É Natal. O mesmo Natal de tantos anos atrás...
Tudo igual: o comércio em êxtase febril
Preocupado em vender seus produtos
Enquanto milhares de pessoas morrem de fome nas ruas
E o que dizer do homem, diante disso?
Fala de papai Noel, Cristo, reflexão
Mas o que faz na realidade
É passar para seus filhos um falso equilíbrio
Uma mentira inventada em prol do capitalismo
É nisso que devemos refletir:
Em vez de fingirmos que está tudo bem,
Por que não imitamos Aquele
Cujo nascimento é comemorado?
Sempre amar e perdoar
E tudo será mudado!!

Ivânia Nunes, 18/12/1992.
Salvador/ Ba.

Contraste

Festa nas vitrines
Fome nas ruas
Mensagens de paz e amor.
Na vida real: violência, injustiças,
Papai Noel, Cristo, reflexão –
Belos símbolos...
Máscaras sobre nossa podridão
Para que tanta hipocrisia?
No Natal, Jesus sente vergonha,
Quando deveria ficar feliz.
Não é seu aniversário?





Ivânia Nunes, 18/12/1992.
Salvador/ Ba.

Sorriso de mãe

Sorriso de mãe
Vale mais que diamante,
Prata ouro e esmeralda
Nem que dure um instante

O valor não é material
Posto ser do coração
É um bem emocional
Que só traz satisfação!

Minha mãe quando sorri
Faz a vida alegrar
Desde o ínfimo colibri,
Ao maior peixe do mar!

Seu sorriso é importante
Não há nem comparação
Vale o paraíso de Dante,
Céu e terra em comunhão.

Ivania Rocha, 08/04/2008.
Irecê/ BA.

SANDÁLIAS HAVAIANAS

Descobri que o melhor amigo do homem não é um cachorro, como já foi dito;
O melhor amigo do homem (e da mulher também)
É um par de sandálias "Havaianas":
Imagine um cão o acompanhando ao banheiro, por exemplo.
No mínimo, ia tirar a sua concentração...
Já a sandália, ah, esta vai com você aos lugares mais inusitados!
E, provando a sua amizade, ela está presente nos momentos mais difíceis:
Na morte de um ente querido, quando muitos de seus "amigos humanos" nem sequer se lembram de lhe dar as condolências, lá está ela, agüentando a sua tristeza e suportando o peso do seu corpo, sem nada reclamar...
E também quando você está doente ou cansado, é ela que conforta suas dores e alivia o cansaço de seus pés...
Mais importante do que tudo isso, é quando chega o feriadão, todos se preparando para viajar, e você, que não nasceu de quina para a lua, se vê gripado, tossindo muito e com dores por todo o corpo...
Diagnóstico: pneumonia.
É Quinta-feira santa e o médico plantonista diz que você deve ficar internado.
Resultado: todos viajam normalmente ou ficam em casa descansando;
Com você só ficam as dores no corpo (inclusive no cotovelo) e as suas fiéis Havaianas.

Irecê, abril de 2000.

ROSA

Rosa-mulher,
Mulher-rosa:
Tão frágil e tão poderosa!

Como podes ter de espinhos um tanto,
Ao mesmo tempo perfume e encanto?

Será que os espinhos protegem a tua
fragilidade,
Ou a tua doçura reflete nos espinhos,
sensibilidade? Irecê, s.d.

AS ESTAÇÕES DAS PALAVRAS

Não há rima que encante
Mais que a pureza de
Palavras aéreas, floridas,
Ternas ou melancólicas

Brancas nuvens passageiras
Melódicas odes vespertinas;
Primavera florida de arco-íris
Que mantêm alhures os dissabores.

Poemas sazonais,
Que não se importam com a forma:
Preocupam-se tão somente
Em seguir a moda da estação.

Se é verão,
As palavras movem-se
A altas temperaturas
E transpiram de emoção.

Se a primavera chega, então
Os grafemas ganham cores e formas,
E espalham no ar o seu perfume
Trazendo à tona a paixão.

Com o outono,
Vento, poesia e canção;
Há festa na natureza,
Junto aos frutos da estação.

Finalmente, o frio inverno
De ventos uivantes,
Ar pesado e sombrio
Que seduz com seu mistério gelado.

De estação em estação,
As palavras nascem e morrem.
Às vezes mudam de tom,
Mas permanecem imortais.
. 30/12/2002.

TEMPO DE APRENDER

Existe hora para aprender?
Tempo de conhecer?
Momento de pensar?

Toda hora é hora
De aprender, de conhecer, de pensar...
De deixar o pensamento voar.

Somente a necessidade
É capaz de determinar
A hora de aprender.
Irecê, 13/01/2006.

POESIA

Escrever é como bálsamo,
Que unge a alma cansada
E alivia as feridas
E anestesia os espinhos da vida

E de triste lamento,
Transforma os dias em alegre acalanto
De comovente encanto
Que ultrapassa as barreiras do real

Não há limites para o sonho,
O sol não é o fim
E assim, fantasia ou realidade,
Tomam forma de poesia.
Irecê, 30/12/2002

REFLEXÃO

Sei que penso
No que muitos pensam
No que tantos sentem
No que alguns sofrem
No que todos vivem

Não sei se penso:
Em mim mesma,
Nos meus desejos e anseios
Desejo? Anseio?

Às vezes me confundo
Com as multidões
Solitárias e vazias,
Que, muitas vezes, não pensam.


Irecê/BA, 30/12/2002.

O RELÓGIO

Esta ampulheta moderna,
Que às vezes nos chateia
Lembrando-nos do tempo que perdemos
Longe um do outro
Ou de birra e magoados;

Também este caleidoscópio imaginário,
Que povoa a cabeça dos apaixonados,
Criando imagens surrealistas,
Da hora que nos conhecemos
Que nos amamos (por sinal a mesma)
E que nos perdemos e nos ganhamos.

É este relógio, este dito relógio
Que te fará lembrar
Da hora da carícia,
Do abraço e do aperto
Do encontro e do abrigo,
Porque todo tempo é tempo
De dizer que te amo
E para sempre serei sempre sua.


Irecê, 07/06/2002.

O TEMPO

Qual o valor do tempo?
Quanto tempo o tempo tem?
Tem pressa, quando o amor está esperando.
Tem tempo, quando vai haver aquela reunião chata.

O tempo tem hora?
Para o moleque,
Tem hora de pular da cama,
Hora de estudar,
De ir para a escola,
De brincar,
De dormir e, o melhor de tudo:
Hora de nada fazer!

Para o marmanjo,
É tempo de conhecer e conhecer-se,
De plantar as sementes,
De se preparar para a colheita,
De fazer a barba,
De regar as plantas do jardim,
Plantar uma árvore
E de se fazer homem.

Para a gatinha,
É chegada a hora de crescer,
De se fazer mulher,
Sentir o corpo mudar,
Acariciar o ego,
Amar e ser amada,
Fazendo história na vida
Para não somente ser historiada!

A mulher,
Ciente de si e sábia do mundo,
Escolhe a hora de criar laços,
De ser mãe,
De experimentar ser mãe da mãe,
De fazer plástica,
De casar e descasar
De ir ao supermercado,
De trabalhar fora,
De ser dona-de-casa...

E o tempo que não tem tempo nenhum
(E nem se preocupa com isso)
Vai passando, passando o tempo inteiro
E se a gente não cuida de ter tempo para as coisas
Que realmente nos importa,
Perdemos muito tempo em não amar,
Não sonhar
E não compartilhar os momentos significativos
Com quem amamos.
Irecê, 07/06/2002.

SOBRINHOS

Essa gurizada
Que chega sem ser convidada
Põe todas as nossas certezas abaixo:
Derruba a casa
E a crença de não casar

Pula o muro,
A cerca
E invade, pela janela,
O nosso coração

E, de teimosa,
Vai ficando, vai nos conquistando,
Vai derrubando as nossas muralhas
E mostrando que é possível sonhar

Voltamos a ser criança,
Entramos no circo e na dança.
E, de repente,
Os sobrinhos crescem...

Irecê, 04/10/2002.

MATERNIDADE

Mãe é o ser mais cativo do mundo
Amor sem reserva
Respeito sem limites
Ternura infinita
Cuidado que preserva

Sem prender
Sem forçar
Sem se ofender
Ou ofender

O amor de mãe é sem fronteiras
Sem apego,
Sem cobranças.
Puro por natureza.

Um amor que dá,
Sem nada pedir.
Que compreende e acalma;
E acalanta o nosso coração

Ser mãe é possibilitar
A vida da semente;
É tornar real
A imortalidade do ser.


Irecê, 04/10/2002.

A DOR

A dor é um sentimento democrático:
Acomete jovens e velhos;
Crianças e adultos; bonitos e feios;
Ricos e pobres; intelectuais e normais...

Não escolhe hora, nem lugar;
Pode ocorrer em partes superiores,
Ou nos ditos membros inferiores do corpo.
Pode ser crônica, aguda ou no estilo vai-e-vem.

Quando é da gente mesmo,
É muito dolorida e nos torna
Ainda mais sensíveis e observadores.
É a mais forte, também a mais depurativa.

Porém, se a dor é alheia,
Não passa de dengo, capricho infantil,
Obsessão, depressão, neurose;
Problema psicológico, mente doentil!

O mais provável é que todos,
Independente do que pensam ou sentem,
Um dia terão vivenciado os dois lados
E serão capazes de tirar suas conclusões.

Então, voltarão suas faces para o céu e:
Primeiro, pedirão perdão pelo que disseram
Da dor que obscurecia o semblante do irmão;
Segundo, agradecerão a Deus profundamente
Por todos os instantes que tiveram o corpo são. Irecê, s.d.

*HOMENZINHO

De olhar forte, porém calmo;
De voz grave, porém melódica;
De gestos ágeis, mas ternos;
De palavra doce, sincera e perspicaz.

Não, não me refiro a uma pessoa qualquer:
Nem homem, nem menino, nem criança.
Mas um ser que transcende qualquer classificação
É este o meu filho:
Um pequeno grande homem!

Inteligente, sensível, meigo...
Mágico poeta levado
Que, de homem grande, nutre nobres sentimentos
E, de tão pequeno, tem medo de dormir sozinho!

* Poema escrito em 12/10/2001,
em homenagem a meu filho, Juan,
que na época estava com 5 anos.

*PEQUENA FLOR

Menina tu és
Pequeno botão que floresce
No esteio do meu jardim!
E como raio de Sol aquece
Em meu corpo e minh'alma
Tudo o que há em mim!




*Poema escrito para a minha
filha, Isabella, em 12/10/2001.
Na época ela estava com 3 anos.

EXTREMOS

Imagine o Sol, miríade de luz irradiando o Universo;
Imagine a grandeza de suas cores
E a intensidade do seu calor!

Agora, pense num ínfimo grão de areia,
Perdido na imensidão do deserto;
Minguado fragmento de terra,
Criado em tempos de erosão:

A miríade é o meu amor,
Infinito como o Sol;
E aquele pequenino grão de areia,
Minguado em si próprio, é o teu.

Mesmo assim, diante da grandeza do Sol,
Os grãos de areia reluzem resplendentes
E ficam mais cálidos e transparentes,
Embebidos que estão da luz e calor do Astro Maior.

Quando chega a noite,
O Sol viaja, tranqüilo, além da Linha do Equador.
E o pequeno grão de areia, sozinho vagueia,
Pelos desertos do seu minguado amor.




Irecê, maio/2001.

É PRECISO SENTIR DOR

Com a nossa primeira dor de dente,
Aprendemos que eles não duram para sempre;
Com as dores das travessuras
Dos tempos de criança,
Nos fortalecemos física e emocionalmente.
Com a primeira dor-de-cotovelo,
Descobrimos que aquele amor
Não é o único...
Outras dores de amores virão:
E outras lições serão aprendidas,
Às vezes, a duras penas,
Como saber o que é ser traído,
Decorar as desculpas esfarrapadas,
Compreender os inúmeros atrasos.
Ser trocada e trocar de paixão.
Mas a dor nos impulsiona
Rumo à reflexão,
À descoberta interior,
A dor nos leva a conhecer-se
Para conhecer o outro,
Aguça a nossa sensibilidade,
Expande a nossa compreensão...
E faz a gente escrever demais!

Irecê, 13/01/2006.

ALMA DE CRIANÇA

Às vezes, me sinto vestida de poesia...
Assim como quem vem de um longo sonho,
Um sonho de quem ainda é capaz de viajar
Pelo universo da fantasia.

Ainda conservo das crianças
A esperança e a eterna curiosidade de viver
O espanto com o cotidiano
E a facilidade de rir ou chorar diante das mínimas coisas.

Apesar de todo o sofrimento que reveste
Esse mundo hostil,
E de toda a guerra que ainda persiste,
Consigo olhar no horizonte o céu azul.

E as estrelas, cintilando ainda mais,
Gotas de luzes revestindo o firmamento.
A lua de ouro e de prata , apaixonada
A lua dos poetas e dos namorados!

Deus criou tudo isso em homenagem
A todas as pessoas, mas só algumas
Desenvolveram a sensibilidade de ver
O que está posto: o dia a dia.


Irecê, 07/09/2000.

A VIDA

A vida, suavemente balança
Como uma gangorra que sobe e que desce
Ora vai bem, como alma de criança
Outras vezes, como planta, murcha e fenece

Aqui conseguimos tudo de bom:
Conforto, carinho e amor
Às vezes, mudando de tom
Nos faz chorar de dor

Vida leve, vida breve
Lágrimas e risos na imensidão
Ágil passa como lebre
Trazendo alegria ou desilusão

Quem, um dia, teve a chance
De nessa vida embarcar
Aproveite a aventura
Antes dela se acabar!

No sonho, na paz e esperança
É preciso ainda acreditar
E na alegria e confiança
Que em breve hão de chegar.




Irecê/Ba, 21/12/2001.

PRAZER

Me dá prazer:
Olhar as estrelas, comer doce e ouvir MPB;
Banho demorado, pipoca, conversar;
Poder ficar olhando para você
E o espetáculo do sol raiar!

E ainda ouvir o barulho das ondas
Tomar banho de mar
Sentir o vento no rosto
Pelas areais da praia caminhar

Ouvir o barulho da chuva
Chupar manga bem madura
Ir ao engenho à tardinha
Provar o mel e a rapadura

Ouvir o canto da passarada
Quando vai amanhecer
Esperar a lua na varanda
Assim que começa anoitecer

Sinto prazer em:
Amar;
Querer;
Sonhar;
Viver! Irecê/Ba, 25/04/2002.

ESPERANÇA DO SERTANEJO

A chuva no sertão faz a alegria do sertanejo
Trazendo de volta a esperança.
Como gotas de prata, rega plantas e almas
Sedentas de água e de vida...
Sem ela, morrem rios, morre pasto, morre boi e boiada
Só não morre a fé do homem de rosto cansado
Que espera, ansioso, o dia em que do céu
Entre nuvens e brumas, cairá
De alvura infinita, o esperado véu
Que mata a fome, a sede e a tristeza de outrora
Enfim, do alívio e descanso é chegada a hora
Nesse tempo, a alma do povo é verde
De mata
De esperança
De amor
De paz e sossego
De tostão no bolso
De roupa domingueira
De alegria
Da fé, que molda essa gente
Humilde, simples, ousada e poeta
Que ri, chora e sente
A alegria de crer na vida.



Irecê/Ba, 25/04/2002.